- Boa tarde, Sr. Silveira.
- Po cara, ja falei pra você me chamar de Pedro. - Disse rindo.
- Me desculpe, como seu médico tenho que começar sempre formal com você.
- Ah, que isso Cláudio, larga desse papo.
- Haha, como quiser. - O psicólogo concordou, sorrindo. - E então, o que está acontecendo com você, Pedro?
- Essa é uma pergunta muito ampla. Sou jovem, muitas coisas ainda estão acontecendo na minha vida. Ainda bem né, quem gosta de viver parado?
- Como você está se sentindo agora, isso é mais fácil? - O médico perguntou.
- Nesse exato momento estou bem, na verdade..
- Tem certeza?
- Sim. Não. Não sei, agora estou bem mas é momentâneo. Mais cedo a sensação era pesada. - Afirma.
- Pesada como?
- Não sei, cara! As vezes vc faz umas perguntas impossíveis de responder.
- Não precisa ter resposta para tudo. Uma mais fácil, como está a alimentação?
- Tranquila. Café, almoço, lanche e jantar, tudo normal.
- E o sono? - Continua, Claúdio.
- Bem, tenho dormido bem calmo, até.
- Tem sonhos?
- Não… Que eu me lembre. - O paciente responde sem muita certeza. - Não! Na verdade teve um sim que agora me veio à cabeça, é de certo ponto bem bonito.
- Você se lembra bem dele?
- Cara, era alguma coisa como se fosse eu, a minha visão… Eu saía de uma floresta escura passando entre duas árvores, mas a floresta era linda. Árvores muito grandes com folhas verdes, muito verdes. Eu saía dessa floresta e observava um lago gigantesco na minha frente, com uma grama baixa na margem,como se fosse um campo. Rodeado de árvores iguais às da floresta. Aqueles lugares que você quer fazer de tudo para conhecer um dia, sabe? Então, tinha uma garota sentada na margem, de costas pra mim. Naquela hora eu sentia uma sensação de paz absurda, sentia a leve brisa batendo no meu rosto e balançando os cabelos daquela menina que continuava sentada ali, imóvel. O outro flash que eu me lembro é de ver um grupo de pessoas do outro lado do lago, uns caras cabeludos, meio hippies tocando violão e se divertindo juntos. Mas não sentia a mesma coisa vendo àquilo. Era como se a energia daquela menina naquele momento fosse muito mais forte do que a necessidade de estar me divertindo e tocando violão junto do pessoal do outro lado. Lembro de ver que ela estava de olhos fechados e com um sereno sorriso, só deixando que o vento batesse em seu rosto.
- Muito interesante, Pedro. Bem bonita a imagem que você produziu. - Comenta.
- Espera, tem mais!
- A vontade.
- Eu lembro também que a floresta era um pouco mais a cima que o lago, fazendo com que existisse uma ladeira entre mim e a garota e que fosse possível ver o outro lado com uma visão um pouco de cima. Então, eu lembro de parar na saída da floresta e observar ao mesmo tempo aquele grupo do outro lado e a menina mais abaixo.
- E qual foi sua sensação?
- Pois é, não me lembro direito. Mas sei que existia uma diferença de energia impressionante entre uma situação e a outra. Bem mais pesado do lade de lá do que de cá.
O psicólogo parou por um instante para analisar seu paciente que nesse momento respirava profundamente como se estivesse exausto.
- Vamos dar uma pausa para um copo d’água, talvez? - Perguntou Cláudio, sorrindo.
- Espera, tem um último flash ainda. Eu me lembro de sentar ao lado dessa garota. Ela virava a cabeça suavemente, abria os olhos e me dava um sorriso lindo. Depois voltava a olhar para o lago, apoiar as mãos sobre as coxas com as palmas voltadas para cima e fechar os olhos. E a última coisa que eu me lembro é de imitar sua posição, fechar os olhos e olhar completamente para o nada.